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RCC
 
A Renovação Carismática Católica (RCC) é um movimento católico surgido nos Estados Unidos em meados da década de 1960. Ele é voltado para a experiência pessoal com Deus, particularmente através do Espírito Santo e dos seus dons. Esse movimento busca dar uma nova abordagem às formas de evangelização e renovar práticas tradicionais dos ritos e da mística católicos. O movimento carismático católico foi influenciado em seu nascimento pelos movimentos pentecostais de origem protestante e até hoje esses dois grupos se assemelham em vários aspectos.
 
Origem
 
A renovação carismática, inicialmente conhecida como movimento católico pentecostal, ou católicos pentecostais, surgiu em 1966, quando Steve Clark, da Universidade de Duquesne em Pittsburgh, Pensilvânia, Estados Unidos, durante o Congressso Nacional de “Cursilhos de Cristandade”, mencionou o livro “A Cruz e o Punhal”, do pastor John Sherril, sobre o trabalho do pastor David Wilkerson com os drogados de Nova York, falando que era um livro que o inquietava e que todos deveriam lê-lo.
Em 1966, católicos da Universidade de Duquesne reuniam-se para oração e conversas sobre a fé. Eram católicos dedicados a atividades apostólicas, mas, ainda assim, insatisfeitos com a sua experiência religiosa. Em razão disso, e recordando a experiência bíblica do Pentecostes e das primeiras comunidades cristãs cheias do Espírito Santo, decidiram começar a orar para que o Espírito Santo se manifestasse neles. Querendo vivenciar a experiência com o Espírito, foram ao encontro de William Lewis, sacerdote da Igreja Episcopal Anglicana, que por sua vez os levou até Betty de Shomaker, que fazia em sua casa uma reunião de oração pentecostal.
Em 13 de janeiro de 1967, Ralph Keiner, sua esposa Pat, Patrick Bourgeois e Willian Storey vão à casa de Flo Dodge, paroquiana Anglicana de William Lewis, para assistir a reunião. Em 20 de janeiro assistem mais uma reunião e suplicam que se ore para que eles recebam o “Batismo no Espírito Santo”. Ralph recebe o dom de línguas (fenômeno chamado no meio acadêmico de glossolalia ou xenoglossalia). Na semana seguinte, a fevereiro de 1967, Ralph impõe as mãos para que os quatro recebam o batismo no Espírito.
Em janeiro de 1967, Bert Ghezzi comunica a universitários de Notre Dame, South Bend, Indiana o que teria ocorrido em Pittsburgh. Em fevereiro, antes do retiro de Duquesne, Ralph Keifer vai a Notre Dame e conta suas experiências. Em quatro de março, um grupo de estudantes se reúne na casa de Kevin e Doroth Ranaghan. Um professor de Pittsburgh partilha a experiência de Duquesne, e em 5 de março de 1967 o grupo pede a imposição de mãos para receber o Espírito Santo.
Após a Semana Santa, relizou-se um retiro em Notre Dame para discernir o que Deus estaria querendo com essas manifestações. Participam professores, alunos e sacerdotes. 40 pessoas de Notre Dame e 40 da Universidade de Michigan, entre os quais Steve Clark e Ralph Martin, que em 1976 iriam para a Universidade de Michigan, em Ann Arbor.
 
RCC no Brasil
 
A RCC teve início no Brasil em 1969 através de Padre Eduardo Dougherty, sacerdote jesuíta norte-americano que comunicou ao Padre Haroldo Rahm, também jesuíta e norte-americano, as primeiras idéias do que seria a Renovação Carismática Católica. Pe. Eduardo Dougherty, SJ (da Associação do Senhor Jesus) também foi quem lançou, em todas as capitais do país, as primeiras “sementes” da RCC, que nos anos seguintes, juntamente com Padre Sales (também jesuíta) realizou Retiros conhecidos como “Experiência do Espírito Santo”, depois “Experiência de Oração”, por todo o Brasil. O trabalho cresceu ainda mais com a adesão do Monsenhor Jonas Abib (futuro criador da comunidade Canção Nova). Em 1974 foi realizado o primeiro congresso nacional da Renovação Carismática, com orientação do Padre Silvestre Scandian. Esse movimento ganhou força em meados dos anos 90 e já responde sozinho por grande parte dos católicos praticantes no país. Ele continua atraindo muitos fiéis e costuma popularizar-se principalmente entre os jovens.
Hoje os nomes mais conhecidos da RCC brasileira são os Padres Eduardo Dougherty, Jonas Abib e Marcelo Rossi. Embora, para muitos dos membros da RCC, Marcelo Rossi não seja um seu representante, pois não participa de nenhum grupo de oração do movimento.
Padre Jonas é fundador da Canção Nova, uma comunidade localizada em Cachoeira Paulista, São Paulo. Comunidade que possui rádios e uma emissora de TV com retransmissão para várias regiões do Brasil. Suas programações são totalmente católicas, não havendo sequer comerciais não católicos e por isso é sustentada unicamente por doações.
 
Características e doutrina
 
A RCC prega e vive a fé em Jesus (para eles, Senhor e único Salvador de todos) e busca promover uma experiência (pentecostes) pessoal com Deus vivo para renovar os valores morais dos cristãos. Prega que o pecado - que consiste em um ato ou desejo contrário a vontade de Deus - é a fonte dos males vividos na sociedade atual. Ganância, egoísmo, soberba, vícios, mau uso da liberdade, etc, são conseqüências dos pecados do homem. A não observação dos mandamentos da Lei Eterna afastam o homem de Deus e são obstáculos a vida Santa. Defende que Jesus tem o poder de libertar e perdoar os pecados e que,para isso, basta que o homem arrependa-se de coração diante dele e se utilize da confissão.
Na RCC - e na Igreja Católica como um todo - todos são chamados a romper com o pecado e viver a santidade de Cristo por meio do Espírito Santo, que segundo eles concede ao homem a plena realização e resgata a sua imagem e semelhança com o Criador de todas as coisas.
Em suas reuniões de Oração utiliza músicas de louvor, adoração que tornam os momentos carregados de ação de Deus, com pregações e o poder do Espírito Santo.
No movimento é presente a devoção à Santíssima Virgem Maria, mãe de Jesus, proclamando a Virgem como bem-aventurada e pedindo sua intercessão e auxílio, já que ela viveu uma vida santa e que serve de modelo a ser seguido pelos cristãos para atingir a Salvação por Cristo.
Como todo católico o bem maior que a RCC e a Igreja possuem é a Eucaristia que é a celebração da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo.
Em termos de doutrina a RCC observa as Sagradas Escrituras; o Catecismo da Igreja e todas as demais diretrizes da Igreja.
 
Os carismáticos e o Espírito Santo
 
Os Cristãos crêem que é o Espírito Santo que conduz as pessoas à fé em Jesus Cristo e que lhes dá a capacidade para viverem uma vida feliz, livres do pecado, norteada pelos valores. O Espírito Santo habita dentro de cada Cristão. É o desejo de praticar o bem. Ele é descrito como um ‘conselheiro’ ou ‘ajudante’ (paraclete em Grego), o Espírito Santo paráclito (aquele que advoga) guiando-os no caminho da verdade e da justiça.
A Renovação carismática coloca uma ênfase especial nas obras do Espírito Santo. Os ‘Frutos do Espírito’ (i.e. os resultados da sua influência) são “amor, gozo (ou alegria), paz, longanimidade, benignidade, bondade, , mansidão, temperança” (Gálatas 5:22). Ele também concede dons (i.e. habilidades) aos Cristãos tais como os dons carismáticos de profecia, línguas, discernimento, sabedoria, cura, , milagres, e ciência. Embora alguns Cristãos acreditem que isto apenas aconteceu nos tempos do Novo Testamento, a RCC acredita que hoje estes dons estão novamente sendo concedidos.
Desse modo, nos grupos de oração da RCC é muito comum o uso do dom de línguas. Também não é raro serem alegadas visões e profecias de origem sobrenatural que transmitiriam mensagens de Jesus, do Espírito Santo ou de Maria. Às vezes chegam a ser alegadas a realização de curas espirituais ou físicas e outros milagres.
 
Efusão no Espírito
 
Segundo a RCC, a Efusão no Espírito Santo é uma experiência que normalmente decorre de um momento de oração e pela qual a pessoa adquire um novo e apurado senso de valor espiritual. A partir desse momento o Espírito Santo passa a orientar a vida da pessoa, confirmando verdades interiores e até modificando posturas diante dos homens e do mundo. Como primeiro resultado deste ‘batismo’ verifica-se o desejo pela oração e pela vida na Igreja. Fala-se também em proliferação de eventos sobrenaturais (idéias, fatos, nomes, condutas, pensamentos), tomados como revelações divinas (dons espirituais).
Segundo a teologia católica, toda pessoa recebe o Espírito Santo por ocasião do sacramento do Batismo. A Igreja não define a necessidade de um segundo batismo, conforme a profissão de fé do Credo Niceno: “Professo um só batismo para remissão dos pecados”. Sendo assim, o ‘Batismo no Espírito Santo’ como entendido pela RCC, não é um sacramento nem um requisito para a Salvação. Ele seria uma renovação do contato com Deus que fora adquirido originalmente pelo batismo, um auxílio para uma vivência da fé mais próxima da anunciada no evangelho e o catalisador uma vida de oração mais intensa. Entende-se que esse batismo no Espírito Santo não seja uma invenção da RCC, mas parte dos primórdios do nascimento da Igreja.
 
A RCC e a CNBB
 
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) possui um Documento, chamado Documento 53, com recomendações disciplinando certas práticas místicas no contexto da RCC. Recomenda-se, por exemplo, que se evite a prática do “Repouso no Espírito” (na qual as pessoas parecem desmaiar durante os momentos de oração, mas permanecem conscientes do que ocorre em sua volta). E preocupações exageradas com o demônio:
 
§         Orar e falar em línguas: O destinatário da oração em línguas é o próprio Deus, por ser uma atitude da pessoa absorvida em conversa particular com Deus. E o destinatário do falar em línguas é a comunidade. Como é difícil discernir, na prática, entre inspiração do Espírito Santo e os apelos do animador do grupo reunido, não se incentive a chamada oração em línguas e nunca se fale em línguas sem que haja interprete.
§         Em Assembléias, grupos de oração, retiros e outras reuniões evite-se a prática do assim chamado “repouso no Espírito”. Essa prática exige maior aprofundamento, estudo e discernimento. (...)
§         Procure-se, ainda, formar adequadamente as lideranças e os membros da RCC para superar uma preocupação exagerada com o demônio, que cria ou reforça uma mentalidade feitichista, infelizmente presente em muitos ambientes.
O documento também menciona vários aspectos positivos do movimento.
 
Críticas
 
Os críticos mais ferrenhos da RCC alegam que ela fomentaria a “histeria coletiva”, além de uma leitura literal e fundamentalista da Bíblia. Muitos deles acham que o clero faz vista grossa com relação aos exageros da RCC devido ao temor do crescimento evangélico no Brasil, já que ela seria uma forma de poder atrair mais fiéis e mantê-los.
Um ponto criticado do misticismo da RCC é o que chamam de “repouso no espírito”. Também ocorre de membros da RCC alegarem experiências místicas como visões ou profecias com mensagens divinas, sentirem a presença de Maria e até a realização de curas e milagres. Como era de se esperar, esses relatos são vistos com ceticismo por muitos. Os carismáticos também costumam buscar a presença de Maria nos grupos de orações.
Alguns afirmam que as experiências tidas como sobrenaturais no contexto da RCC seriam facilmente explicadas pela ciência como tendo, na verdade, fundo psicológico. Fenômenos semelhantes ocorreriam em igrejas evangélicas petencostais e no espiritismo. Podem ser encontradas na Internet supostas explicações que falam de algum tipo de “hipnose coletiva” durante o ambiente carregado de emoção dos grupos de oração e missas da RCC, também já se falou de “alterações na região do cérebro responsável pela noção de espaço-tempo” como o fato que gerasse o “repouso no espírito”. Mas é preciso reconhecer que faltam estudos sérios sobre o tema. Não há nenhum consenso entre cientistas ou acadêmicos com relação a essas explicações e também não estão claros possíveis benefícios ou malefícios das práticas do movimento.
Um dos maiores críticos da RCC é o padre Quevedo. Ele afirma que vivem em um ambiente feitichista, místico e alienante. Por outro lado, há também muitos religiosos católicos que dão forte apoio a esse movimento, vendo ele como uma fonte de renovação de Deus para a Igreja.
Existem questões políticas também envolvidas no crescimento da RCC, pois até o final dos anos 80 boa parte da Igreja Católica, principalmente nos países em desenvolvimento como os da América Latina, era orientada pela Teologia da Libertação, que cresceu com a luta contra a ditadura militar, com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e os diversos movimentos sociais.
O discurso da Teologia da Libertação tinha algumas de suas raízes no Marxismo e Comunismo e falava de luta de classes e participação dos cristãos católicos na política, com a intenção de se “construir o reino dos céus na Terra.” Alguns membros da Igreja chegaram mesmo a participar da fundação de partidos políticos como o Partido dos Trabalhadores, no Brasil.
A RCC é mal recebida por grupos mais tradicionais dentro do catolicismo, que a acusam de sentimentalista e irracional, além da acusação de que muitos abusos cometidos durante a celebração da missa são obra dos carismáticos.
Outro fato que desagrada aos tradicionalistas é o ecumenismo entusiasta de muitos membros da RCC, principalmente quando introduzem músicas pentecostais nas cerimônias católicas.
 
Influência dos pentecostais
 
Especialmente no seu início, a RCC foi influenciada pelo movimento evangélico pentecostal. Seguem-se alguns dos maiores exemplos desse envolvimento.
 
·         O livro “A Cruz e o Punhal”, influente na formação do movimento, foi escrito pelo Pastor David Wilkerson, que também pregou em um dos primeiros Congressos da RCC nos Estados Unidos;
·         Padre Tomas Forrest, liderança internacional da RCC no início do Movimento, teve sua experiência do ‘Batismo’ no Espírito Santo num retiro da Renovação Carismática Católica dos EUA pregado por dois padres, uma freira e dois evangélicos Metodistas. (3)
·         Parte considerável das músicas do livro “Louvemos ao Senhor” e outras populares no movimento, têm origem no protestantismo, tais como “Buscai primeiro o Reino de Deus” e “Glorificarei teu nome, oh Deus”, “Pelo Senhor marchamos sim...”, “A alegria está no coração...”, “Posso pisar uma tropa...”, “Eu navegarei...”, “Espírito (...) vem controlar todo o meu ser...”, “Espírito, enche a minha vida, enche-me com teu poder...”, “Assim como a corsa...”, “Deus enviou seu filho amado...”, “Se as águas do mar da vida...”, “Eu sou feliz por que meu Cristo quer...”. Temos ainda exemplos mais recentes, como “Levanta-te, levanta-te Senhor... fujam diante de ti teus inimigos”, “Venho Senhor minha vida oferecer”, “Meu pensamento vive em você...”, “Se acontecer um barulho perto de você...”, “Celebrai a Cristo, celebrai...”.(3)
 
De fato, algumas vertentes evangélicas petencostais reclamam da RCC por esta copiar seus ritos e músicas. Por outro lado a RCC também tem suas próprias músicas. Para muitos carismáticos e pentecostais isso é visto de forma positiva, pois seria o início de um verdadeiro ecumenismo entre os cristãos através da partilha da música cristã. O diálogo ecumênico e uma maior aproximação com fiéis de outras denominações cristãs é uma das metas do Vaticano e da CNBB e uma recomendação da Igreja aos fiéis católicos.
 
 
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